O Amapá é o mais setentrional dos Estados brasileiros. Desde os primeiros dias de aula, aprende-se que o Brasil vai do Chuí, no extremo sul, até o Oiapoque, fim de linha do Amapá, que também é o único Estado sem ligação rodoviária com o restante do país.
Mas ontem o Amapá podia ter começado a fazer parte do SIN, o maior sistema integrado de transmissão de energia do mundo, que cobre quase todo o território nacional, com seus 8,5 milhões de quilômetros quadrados, exceto os Estados de Roraima e Amapá.
Uma obra no valor de 3,5 bilhões de reais foi realizada para levar a energia da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, a quarta maior do planeta, até Manaus, a oeste, e a Macapá, a leste, numa extensão global de dois mil quilômetros. Para que ela alcançasse os seus dois destinos, foi preciso construir as mais altas torres já erguidaspelo homem em uma linha de transmissão, equivalentes em altura à torre Eiffel, de Paris. Só assim podiam atravessar o rio Amazonas, que chega a ter 40 quilômetros de largura.
O braço amapaense da linha, com 334 quilômetros, já foi concluído. Mas a energia não chegou à capital amapaense. Por um único e inacreditável detalhe: o governo do Estado não preparou a infraestrutura para receber, rebaixar a tensão e promover a distribuição da energia aos mais de 400 mil habitantes de Macapá. Esse serviço está orçado em R$ 42 milhões, pouco mais de 1% do “linhão” da Eletronorte.
Talvez essa complementação só venha a ser feita no início do segundo semestre. Significa que até lá a usina de energia local continuará a consumir derivado de petróleo e, por isso, gastando mais para fornecer energia e exigindo compensação do governo federal. Dinheiro do tesouro nacional.
Isso, se a construção da subestação de energia e dos 39 quilômetros de cabos de conexão com a linha de alta tensão de Tucuruí se acelerarem. As obras começaram recentemente, conforme verificou o jornal Valor, de São Paulo, ao anunciar a liberação da operação do “linhão” pelo Ibama.
Tudo isso podia ter sido evitado se as partes envolvidas no conjunto do projeto tivessem aproveitado o exemplo anterior. Em julho do ano passado essa mesma linha estava em condições de abastecer Manaus, que tem dois milhões de habitantes. Mas não entrou em operação porque a companhia amazonense, também estadual, deixou de fazer a sua parte. Como ela estava enredada em dívidas no valor de R$ 1,6 bilhão, a Eletrobrás a encampou.
Se o cronograma original fosse executado, ainda neste ano, Amapá e Roraima já estariam conectados ao sistema nacional, poupando o tesouro de gastar mais de R$ 2 bilhões por ano com a aquisição de óleo para o funcionamento das usinas térmicas isoladas da região Norte. O saque desse dinheiro é feito através da Conta de Desenvolvimento Energético (a antiga Conta de Consumo de Combustíveis), cobrada na conta de luz de cada cidadão.
Caso ainda mais grave de desconexão no planejamento energético aconteceu no ano passado. Na hora de fazer a conexão da energia gerada pelas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, com a linha de transmissão de 2.375 quilômetros até Araraquara, em São Paulo, descobriu-se a incompatibilidade entre os dois sistemas. O volume energia das duas usinas, com potência nominal de 6,4 mil megawatts e custo aproximado de R$ 30 bilhões, só podia ser transmitido com enormes limitações. Para o sul, apenas 700 MW, sob pena de colocar em colapso as turbinas.
Para que isso não acontecesse, seria preciso instalar uma peça para proteger as turbinas quando elas fossem repassar a energia para ser transmitida. Cada peça custaria R$ 14 milhões. Como 88 turbinas serão instaladas nas duas hidrelétricas, o acréscimo – decorrente do desajuste entre os dois momentos da geração e transmissão de energia – será superior a R$ 1,3 bilhão, ou 4% do custo total das usinas.
Custo esse já majorado em quase metade do valor que tinha quando as obras foram licitadas. E a ser pago sabe-se bem por quem.


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